segunda-feira, 25 de julho de 2011

O que houve Obama?

Barak obama2

Vai ser um fim-de-semana "quente". O presidente Obama reuniu na Casa Branca este sábado (23 de julho)com os lideres Republicanos e Democratas do Congresso durante, apenas, 50 minutos. Não houve fumo branco e as negociações vão prosseguir. O speaker Republicano John Boehmer espera poder haver um plano domingo à tarde (hora de Washington).
A sequência de acontecimentos a menos de seis dias do limite de 2 de agosto é impressionante. De rumores de entendimento entre Obama e os Republicanos passou-se a um rompimento na sexta-feira.
Foi, de facto, um Presidente claramente frustrado com os Republicanos que surgiu na sexta feira ao final da tarde (hora de Washington) na 3ª conferência de imprensa em duas semanas em torno do tema do momento na América: o risco de um default (incumprimento) na maior economia do mundo nas primeiras semanas de agosto se o teto de endividamento federal não for aumentado na próxima semana.
Apesar do corte de negociações na sexta-feira por parte do speaker Republicano John Boehner, o presidente norte-americano repetiu "We will not default" (Não entraremos em incumprimento), mas alertou que os "mercados reabrirão na segunda-feira" e que as agências de notação de risco poderão não esperar por tantos jogos políticos.
Alguns media da área de negócios titularam, logo, depois da conferência de Obama: "Será que os mercados entrarão em crash na segunda-feira?". O fantasma dos mercados caindo a pique regressou, começando na Ásia (quando ainda será domingo nos Estados Unidos) e acabando em Wall Street, em Nova Iorque.
Até há pouco tempo atrás a grande discussão nos Estados Unidos girava em torno da possibilidade de um double-dip (recaída na recessão) e dos efeitos - benéficos ou negativos - dos dois programas de "alívio quantitativo" prosseguidos pela Reserva Federal. Subitamente, surgiu a partir de meados de maio o tema do teto de endividamento e a palavra tabu "default" subiu à cena nos Estados Unidos, a economia do mundo onde seria suposto tal nunca acontecer.

Republicanos prisioneiros de grupo radical


"Coloquem a política de lado apenas por um minuto", apelou Obama que convocou para o dia seguinte uma reunião dos quatro líderes do Congresso - o próprio Boehner, que é o speaker (equivalente a presidente do Parlamento) da Câmara de Representantes, a líder democrata da minoria na Câmara, Nancy Pelosi, o líder da maioria democrata do Senado Harry Reid e o líder republicano da minoria do Senado Mitchel McConnell. Não foi referido se seria convocado o líder da maioria republicana da Câmara, Eric Cantor.
O presidente declarou que recuou até ao limite - inclusive no que já não era aceitável pelos democratas - nas negociações com Boehner, admitindo não aumentar impostos (mas sim aumentar a receita apenas alargando a base tributária e eliminando 'buracos') e aceitando cortar inclusive em programas de saúde e na segurança social. Obama salientou que havia dado o "sim" a um compromisso que ia para além da própria proposta do "grupo dos seis" - senadores democratas e republicanos que avançaram com uma plataforma bipartidária. Mas que Boehner não aceitou e que inclusive não respondeu a um telefonema do presidente, o que alguns analistas interpretaram como uma quebra no próprio relacionamento pessoal dos dois políticos - recorde-se que o speaker é o terceiro na hierarquia americana, depois do presidente e do vice-presidente.
A interpretação política dada por Obama sobre este rompimento por parte de Boehner é o facto do republicano estar prisioneiro de um grupo de pressão radical interno para quem "um default não é sequer problema".
Um dos congressista americanos que advoga abertamente o "default agora" é o republicano Ron Paul, candidato às presidenciais de 2012 e um dos mais acérrimos inimigos da Reserva Federal (banco central) e das suas políticas. Paul, em artigo publicado na sexta-feira na Bloomberg, afirmou "é preferível que seja mais cedo do que mais tarde" e com uma crise bem pior.

Bola de gelatina


O speaker, em resposta, meia hora depois, argumentou que o corte de negociações derivou do presidente, no último minuto, ter pedido mais 400 mil milhões de dólares em aumentos de impostos para além dos 800 mil milhões já acordados, que seriam obtidos através da reforma do sistema tributário. Acusou o presidente de não se ater a compromissos anteriores. Boehner disse ainda que "como pequeno empresário que fora sabia bem como mais impostos fazem mal". E que não recuaria nesse ponto.
"Negociar com a Casa Branca é como negociar com uma bola de gelatina", comentou Boehner, que se concentrará, agora, em procurar um entendimento no Senado, onde o plano republicano foi chumbado, depois de ter sido aprovado na Câmara de Representantes. O Senado tem maioria democrata e a Câmara maioria republicana.
Boehner, no entanto, sublinhou que estaria presente na reunião de sábado convocada pelo presidente e que "não acredita que o relacionamento [entre os dois] tenha ficado estragado em definitivo".
Alguns analistas sugeriram que os Republicanos aceitassem um acordo mínimo que permitisse no curto prazo uma extensão por algumas semanas - falou-se em 4 a 6 semanas - do teto de endividamento federal. Boehner respondeu, na conferência de imprensa que deu, que não aceitaria essa possibilidade. Mais uma porta que se fechou.

Plano B


Surge, assim, a possibilidade de um Plano B - o próprio presidente aumentar o teto de endividamento, caso necessário. "Tomarei a responsabilidade. Fá-lo-ei. Não vamos alimentar este jogo", disse, enfaticamente, o presidente. Poderá aumentá-lo em 2,5 biliões de dólares (2500 mil milhões de dólares).
Continua a apontar-se quarta-feira como o dia D para uma resolução legal.
Vários analistas referiram que este ambiente político confirmará as dúvidas das agências de rating que suspeitam que o sistema político americano não tem atualmente capacidade em lidar com o problema da dívida pública e do défice orçamental numa perspetiva de longo prazo, mesmo que chegue a uma solução de mais um aumento do teto da dívida até 2 de agosto.



Fonte: http://aeiou.expresso.pt/obama-nao-entraremos-em-default-video=f663682#ixzz1T8qVHksB

sábado, 9 de julho de 2011

Que escândalo, hein!

Alfredo Nascimento, ministro dos Transportes
Alfredo Nascimento, ministro dos Transportes (Antônio Cruz/ABr)

O afastamento da cúpula do Ministério dos Transportes por suspeita de corrupção pela presidente Dilma Rousseff no final de semana deixou o ministro Alfredo Nascimento(foto acima) em posição insustentável no comando da pasta, na avaliação de aliados do Palácio do Planalto no Congresso. A queda do ministro é esperada em breve pelos governistas e a oposição avalia a apresentação de um pedido de criação de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre o caso.
A rapidez com que Dilma atuou no episódio levantou ressentimentos na base. Parlamentares aliados previam, ontem, dificuldades futuras para a presidente na relação com os partidos que a apoiam no Legislativo. Eles sustentam que a presidente humilhou o PR, que comanda o Ministério dos Transportes, e fragilizou a confiança com a base pela forma com que agiu.
Dilma anunciou o afastamento assim que a revista Veja começou a circular com a denúncia sobre um esquema de cobrança de propinas na pasta, na manhã de sábado, sem dar chance ou prazo para explicações ao ministro Alfredo Nascimento. Esses fatos, avaliam governistas, revelam que Dilma já pretendia fazer mudanças no ministério e aproveitou a oportunidade.
Nos bastidores, as desconfianças com a presidente vão além. Setores da base afirmam não ter dúvidas de que as informações sobre o suposto esquema foram passadas à revista por integrantes do próprio governo.
Reportagem publicada pela revista revela o funcionamento de um esquema montado nos Transportes baseado na cobrança de propinas de 4% das empreiteiras e de 5% das empresas de consultoria que elaboram os projetos de obras em rodovias e ferrovias.
Foram afastados pelo governo o diretor-geral do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), Luiz Antônio Pagot, o presidente da Valec Engenharia, José Francisco das Neves, o chefe de gabinete do ministério, Mauro Barbosa Silva, e o assessor Luís Tito Bonvini.

domingo, 3 de julho de 2011

Ricos no furacão

Na semana passada, o mundo olhou para os gregos enfurecidos, como se naqueles dias fosse ser definido o futuro da moeda que uniu a Europa. Quem acompanha a economia respirou aliviado quando soube que o Congresso americano suspendeu o recesso. Há chance de que os Estados Unidos entrem em moratória. Deu a louca nos ricos? Euro e dólar tiram o sono do planeta.
Os americanos têm dificuldade de entender certo tipo de crise. Eles sabem o que é depressão, mas incapacidade de pagar dívida pública ou uma crise monetária são fatos estranhos para eles. Sempre tiveram o privilégio de emitir dívida na própria moeda e o mundo sempre comprou; há décadas o dólar é a moeda de referência do mundo.
Agora, fala-se em moratória na dívida americana. Mas não de um calote como o grego. Se acontecer, será resultado da briga política dentro do congresso, que não quer aprovar a elevação do limite do endividamento do governo. Reunidos no recesso, os parlamentares podem fechar um acordo para tirar o país dessa situação estranha. Se bater no limite, e eles não puderem fazer mais dívida, o que exatamente acontece? O mundo não sabe bem. A economista Monica de Bolle diz que a economia entraria em curto-circuito, porque a dívida americana e o dólar são os dois ativos que servem como referência para o risco zero. Se não forem mais risco zero, tudo tem que ser revisto: de ativos dos fundos de pensão até classificações de risco de dívida.
Isso acontece num momento em que o último dos moicanos do supertime econômico do presidente Barack Obama está, aparentemente, arrumando as malas. O secretário do Tesouro, Timothy Geithner, desmentiu que está de saída, mas na quinta-feira todo o noticiário especializado de economia dos Estados Unidos estava acreditando no rumor que circulava.
Em última instância, basta aos Estados Unidos imprimir papel para ter dólares. Então, o que se discute não é a capacidade financeira do país, mas a autorização do Congresso para que o Tesouro faça novas dívidas para cobrir seus gastos atuais. É uma boa hora de lembrar uma velha lei da economia que sempre serviu para todos: não se deve gastar além das possibilidades.
O déficit do governo Obama este ano será o terceiro maior do período pós-guerra. Os dois maiores foram nos dois últimos anos. Isso fez a dívida pública estourar o limite estabelecido pela lei americana, que é de US$ 14,3 trilhões. Foi quando surgiram o impasse e o risco. Os republicanos, que defendem a austeridade, foram os mesmos que pegaram o país com superávit orçamentário e entregaram com déficit e a economia em frangalhos. Mas, com Obama candidato à reeleição, aproveitam.
Esse limite de endividamento, segundo o banco americano Morgan Stanley, já foi elevado 80 vezes desde 1917.
Obama herdou um país em recessão, atolado em duas guerras, com os bancos falidos, as famílias endividadas e o mercado imobiliário em depressão. Abriu o cofre para tentar reativar a economia. Ao mesmo tempo, não conseguiu reduzir o orçamento da Defesa e aprovou uma nova lei de seguridade social que ampliará os gastos com saúde.
Pelos cálculos do Instituto Watson de Estudos Internacionais, da Brown University, o custo com as guerras do Afeganistão e do Iraque, nos últimos 10 anos, chegou a US$ 3,7 trilhões. O gasto do ministério da Defesa, na verdade, é maior, segundo as contas da Tendências consultoria. O orçamento da pasta que em 2001 foi de US$ 314 bilhões havia mais que dobrado em 2010, para US$ 707 bilhões. Ao todo, o ministério consumiu em 10 anos cerca de U$ 5,2 trilhões (vejam o gráfico abaixo).
Outro nó é a dívida dos estados e municípios, que também é enorme. Estados como Califórnia, Illinois e Flórida estão com problemas desde antes da crise financeira de 2008. O economista Roberto Almeida Prado, do Itaú Unibanco, calcula que mais de 550 mil funcionários públicos já foram demitidos desde 2009 em estados e municípios, agravando ainda mais o quadro de desemprego. Arizona, Michigan e Tennessee estão com receitas 17% menores que 2007, segundo o site politico.com. Califórnia e Flórida, com arrecadação 18% menor.
A Grécia vive a ressaca da sensação de que tinha ficado rica ao entrar na União Europeia. Outros países da região se sentiram assim quando o custo de financiamento da dívida caiu muito. É diferente emitir dracma, escudo, peseta, ou ter como moeda o euro. A Alemanha, que tudo aprendeu na sua história sobre valor da estabilidade monetária, emprestou essa credibilidade a todos. Eram todos alemães, até que a crise americana mostrou que há também gregos, portugueses, espanhóis, irlandeses.
A farra grega foi enorme: de 14 a 18 salários por ano, dependendo da categoria, endividamento familiar alto, dívida e déficit escondidos com a ajuda de consultorias americanas, aposentadoria precoce.
Americanos e gregos — entre outros — gastaram mais do que podiam. Na vida pessoal e coletiva. Essa é a síntese da origem de todas as crises. Há diferenças enormes entre eles.
Os Estados Unidos vão chegar a um acordo no Congresso, elevar o teto da dívida e continuar emitindo a moeda que por enquanto ainda é a referência. Não o será para sempre. Os gregos vão entrar em moratória. O parlamento deu apenas um tempo para a Europa encontrar uma saída organizada.
Para nós, ficam dois alertas. Primeiro: melhor é ter as contas controladas. Públicas e privadas. Segundo: o mundo está mudando espantosamente e alguns dos países mais ricos do mundo estão no meio do furacão. É tempo de ficar atento e saudável.